quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

A POLÍTICA CULTURAL E OS MUSEUS por Almandrade

A POLÍTICA CULTURAL E OS MUSEUS
p/ Almandrade

A carta dos profissionais de museus ao Secretário de Cultura da Bahia,
me fez lembrar a crítica do carioca Wilson Coutinho: “Depois que
happenings e performances deixaram de ser engraçados, a instalação
ocupou, até na maioria dos casos, a nova forma populista de exibição:
mexe-se nela, anda-se, escuta-se barulhinhos, morde-se alguma coisa,
sente-se o vento, somos obrigados a andar descalços, etc. o que tornou
os museus e centros culturais verdadeiros playgrounds para alegrar o
adulto idiotizado e a criança criativa”. Estamos falando de um museu
específico, o de arte. Se ele é o espelho de uma produção cultural, em
tal contexto, reflete o narcisismo do espetáculo, em detrimento do
ponto de vista da reflexão.

A partir das décadas de 1980 e 90, foram criados centros culturais e
museus, em quase todo o mundo, sem se saber ao certo o que colocar
neles. Surgiu também uma nova profissão na arte: “a sua excelência, o
curador... Os museus tornaram-se espetáculos que pouco importa o que
se mete dentro deles...” (Coutinho). Como se não bastasse tudo isso,
com algumas exceções, Tem-se a impressão de que o coquetel e presença
de celebridades registradas nas colunas sociais são mais importante
que a exposição.

Perdão aos profissionais de museus, por meter a colher onde não
deveria, por entrar numa discussão que não é mais da especialidade e
da responsabilidade do artista plástico, mas a minha intenção política
não tem outro significado, senão contribuir para o debate. O fato é
que, na década de 1970, quando iniciamos o nosso percurso na arte,
descendentes da arte conceitual, tínhamos o museu, como um lugar de
atuação e discussão, os mais politizados, até falavam de suas
propostas artísticas, como intervenções materialistas na instituição
ou no circuito de arte. Também não havia lei de reserva de mercado.
Hoje, o artista vive à margem da república museal, também pudera, ele
perdeu a consciência crítica e o discurso, passou a ser um produtor de
obras voláteis, o verdadeiro bobinho da corte para animar platéias com
pouco raciocínio.

A salvaguarda fica ainda comprometida, quando é o próprio artista que
despreza o acervo do museu, seu material de trabalho e reflexão, ele
esqueceu a lição de Cézanne que passava tardes no Louvre, contemplando
a tradição para dar um passo adiante na modernidade. Sem ter o mínimo
trabalho de olhar, declaram-se artistas talentosos nos sites de
relacionamentos, para o K K K da platéia de amigos. O pior é que esse
culto à ignorância é uma praga que está contaminando parte da chamada
arte contemporânea, agentes do circuito, e até defensores de uma
política cultural. Nessa confusão, o melhor gestor é aquele que faz
mais festas, mais vernissages, que trás para a província novidades que
já ocorreram em outros tempos, para atender outros interesses.

Os artistas visuais não chegaram a viabilizar um processo de discussão
acerca de uma política para as artes, alguns arriscaram acusações, mas
sem apresentar as provas. Difícil condenar o inimigo. É preciso pensar
a realidade museológica e as artes visuais na Bahia. Se os artistas
não articularam nenhum discurso, nem fizeram propostas, se limitaram a
reivindicações, os museólogos foram mais espertos, aparelhados com a
Política Nacional de Museus, acenderam a fogueira. Resta saber se a
lenha vai realmente pegar fogo. Não adianta só o vento soprar, a lenha
precisa estar seca.

Os museus passaram por reformas significativas nos últimos anos,
ganharam prestígios e são considerados instituições culturais
referência da cidade contemporânea. Surgiu até a indústria de museus,
que atua mais a serviço do entretenimento e do turismo do que da
memória, da história e do exercício da cidadania, mas capaz de
movimentar a economia. Essa difícil conciliação cultura e economia que
ocupa cada vez mais centro das atenções.

Em salvador, os museus são instalações arquitetônicas adaptadas,
muitas que não atendem mais as condições exigidas de guarda e
conservação do acervo, outras em condições estupidamente precárias,
contrárias a tudo que recomenda as necessidades e política de museus.
Temos a política, mas não temos onde aplicá-la. Será que adianta
ensinar a criança a lavar as mãos antes das refeições, se em casa a
água é escassa? Vamos acreditar que sim, um dia ela vai ser crescer,
perceber a riqueza da água e lutar para reverter essa situação.

Na segunda metade da década de 1980, quando ocupamos o Departamento de
Museus da Fundação Cultural do Estado, tendo à frente o artista
plástico Zivé Giudice, defendemos a transferência do Museu da Arte
Moderna do Solar do Unhão para uma edificação que atendesse às
exigências da museologia, em área da cidade de fácil acesso e com um
partido arquitetônico de visibilidade moderna. Fomos vencidos.
Readaptado para as condições de museu, a arquitetura do Solar do Unhão
foi comprometida, a escada projetada pela arquiteta Lina Bardi que
dialogava com o exterior através das esquadrias, ficou estrangulada.
Com poucos recursos, sem vontade política e principalmente sem vontade
intelectual, os museus sobrevivem na capital da festa.

Almandrade
(artista plástico, poeta e arquiteto)